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ENTREVISTA SOBRE TECNOLOGIA SOCIAL

De: Marcio Schiavo (diretor-presidente da Comunicarte)
Para: Andréia Peres

É possível “importar” tecnologias sociais de outros lugares, como o Banco do Povo, de Bangladesh? Em caso afirmativo, o que é preciso avaliar antes da “importação”?
Se a ação ou iniciativa em causa for realmente uma tecnologia social, claro que é possível. Afinal, uma das principais características das tecnologias sociais é seu potencial de replicabilidade em outros contextos sociais, uma vez que contêm um núcleo conceitual e metodológico aplicável a diferentes realidades. Especificamente em relação ao Banco do Povo, cremos firmemente nas possibilidades de “importação” ou replicação dessa tecnologia. Contudo, deve-se ressaltar que o Brasil possui considerável experiência e criatividade em sistemas de microcrédito, o que torna desnecessária essa importação.

Quais são os critérios utilizados para medir o impacto e o sucesso de uma tecnologia social?
São muitos os critérios possíveis de serem aplicados à avaliação do impacto e à aferição do êxito das tecnologias sociais. A Comunicarte aplica uma metodologia baseada nos critérios de eficácia, eficiência e efetividade (3E). Avalia-se a eficácia de um projeto, programa e/ou tecnologia social pelo grau de consecução dos seus objetivos e metas, levando-se em consideração as transformações instauradas no meio ambiente e/ou junto aos públicos-alvo. A eficiência é medida pela economia de tempo e recursos (humanos, materiais, tecnológicos e financeiros) obtida na consecução dos objetivos e metas; ou seja: é fazer mais com menos. A efetividade, por sua vez, é aferida pelo nível de sustentabilidade das mudanças instauradas e dos novos conhecimentos, atitudes e práticas disseminados. A eficácia relaciona-se ao produto ou resultados alcançados pela tecnologia; a eficiência, à natureza e qualidade do processo de execução das atividades; a efetividade, ao impacto causado. Assim, uma tecnologia pode ser eficaz sem ser eficiente e efetiva; pode ser eficaz e eficiente, mas não efetiva; e pode ser eficaz e efetiva, sem ser eficiente. É difícil, porém, encontrar-se esses três atributos numa mesma tecnologia.

O destino final de uma tecnologia social é ganhar escala de política pública? Que tecnologias sociais ganharam essa escala e por que isso aconteceu?
Certamente, o grande objetivo que se tem ao criar uma tecnologia social é torná-la uma política pública; e não, necessariamente governamental – como já foi esclarecido. No Brasil, várias tecnologias sociais já se transformaram em políticas públicas. São exemplos: a) a farinha multimistura, utilizada em grande escala pela Pastoral da Criança e outras instituições; b) as cisternas de placas pré-moldadas que, no Nordeste, acumulam a água da chuva e proporcionam o abastecimento durante os períodos de seca; c) a adição de soro de leite bovino a preparações alimentares, integrante do Programa Crescer, já utilizada por vários municípios mineiros na merenda escolar; d) o Projeto Mãe Canguru, que substitui com vantagens a utilização de incubadoras nos cuidados a bebês prematuros; e) o soro caseiro, amplamente utilizado nos programas desenvolvidos pelo UNICEF e, também, pela Pastoral da Criança. Note-se que as tecnologias “cisternas de placas pré-moldadas”, “Projeto Mãe Canguru” e “soro caseiro”, além de públicas, também se tornaram políticas de governo.

Como você pensou e montou o Banco de Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil? Quanto tempo demorou o processo? Quando foi isso? Qual foi a reação das pessoas (hoje isso ainda é muito novo, fico imaginando naquela época...)?
O Banco de Tecnologias Sociais, da Fundação Banco do Brasil, foi concebido e formatado com base no DNA da organização, que remete ao conceito de banco, do seu instituidor. A idéia-força é a de “depósitos” e “saques” de tecnologias sociais, sendo que a cada “saque” ou replicação, o capital social acumulado se multiplica. O Banco de Tecnologias Sociais e o Premio Fundação Banco do Brasil de Tecnologias Sociais – a estratégia de captação de tecnologias sociais para o Banco – foram formatados em cerca de cinco meses, de novembro de 1999 a março de 2000. Desde o início, a idéia do Banco causou grande impacto junto a líderes e formadores de opinião no Terceiro Setor brasileiro, que reconheceram o elevado nível de inovação e criatividade, de qualidade e alinhamento à missão do Banco do Brasil e da Fundação Banco do Brasil, assim como seu elevado potencial para gerar transformações positivas e duradouras na área social, contribuindo efetivamente para a inclusão social dos segmentos populacionais excluídos. Esta resposta é bem curtinha porque, anexo, segue o documento de conceituação do Prêmio e do Banco, no qual podem ser obtidas informações mais detalhadas sobre estas bem-sucedidas iniciativas, agraciadas com o 1º. Marketing Best de Responsabilidade Social, em 2002, e o Prêmio ABERJE nacional em 2003, além do ABERJE Centro-Oeste/Leste, em 2002 e 2003.

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