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ENTREVISTA SOBRE TECNOLOGIA SOCIAL

De: Marcio Schiavo (diretor-presidente da Comunicarte)
Para: Andréia Peres

e) Viabilidade Política – É a etapa em que a tecnologia social passa a ser reconhecida e aceita como uma solução eficaz, conquistando autoridade e visibilidade junto a diferentes atores sociais. Para isso, é fundamental desenvolver um programa consistente e articulado de comunicação, de maneira a disseminar a tecnologia junto aos diferentes públicos de interesse e, em especial, junto aos líderes e formadores de opinião. Os públicos-alvo das ações de comunicação deverão ser adequadamente segmentados, de acordo com a natureza da tecnologia social, para que os produtos e atividades sejam bem focalizados, propiciando resultados mais rápidos e consistentes. Assim, uma tecnologia de natureza educacional deve ser disseminada, prioritariamente, junto a professores, diretores de escolas, supervisores e orientadores educacionais, formuladores e executores de políticas educacionais nos três níveis de governo e legisladores, nos âmbitos municipal, estadual e federal. Seja qual for a natureza da tecnologia social, os profissionais de comunicação também devem constituir um público-alvo prioritário, dada a sua capacidade de multiplicação das informações e de contribuição à formação da opinião pública. Assim, paulatinamente, a tecnologia social se vai impondo como uma conquista social, sendo comentada e recomendada por técnicos influentes em suas áreas de atuação, reivindicada e apontada como solução por diferentes organizações e movimentos sociais. Uma tecnologia social torna-se politicamente viável quando é institucionalizada, questão analisada mais adiante.

f) Viabilidade Social – Esta é a última etapa do processo de construção de uma tecnologia social, quando ela deverá estar apta a ganhar escala, sendo replicada em comunidades que enfrentem os problemas que motivaram sua criação. Neste caso, dois fatores são cruciais. Primeiro: a tecnologia deve ser formatada e sistematizada como uma franquia, para que o processo de replicação se realize de acordo com o modelo preestabelecido, inclusive com os ajustes e alinhamentos necessários para atender às especificidades locais. Segundo: é preciso que se estruture uma ampla rede de atores sociais em torno da tecnologia, replicando-a em diferentes pontos de distribuição, facilitando o acesso da população aos serviços. Nesta fase, a tecnologia social já poder ser considerada uma política pública. Se for possível envolver o setor governamental, tornando-a também uma política de governo, seus resultados e impacto social serão potencializados.

Quanto tempo, em média, leva esse processo?
Depende muito da natureza e complexidade da tecnologia social que se pretende desenvolver ou que se está desenvolvendo. De qualquer modo, a etapa de diagnóstico situacional (ou de EISO/RISO) não deverá levar menos de dois meses, a fim de que elabore um estudo criterioso e consistente; por sua vez, as tapas de testes preliminares e efetiva implantação da tecnologia requerem de quatro a seis meses de trabalho; a de monitoramento e avaliação de resultados, não menos de seis meses. Deste modo, o tempo mínimo requerido para que uma tecnologia social seja concebida, desenvolvida, implantada, acompanhada, aperfeiçoada e possa demonstrar a sua eficácia e eficiência por meio de resultados quantitativos e qualitativos consistentes é de um ano a um ano e meio. Antes disso, deve-se considerar o protótipo em fase de experimentação, ainda na dependência da comprovação dos resultados esperados.

O que torna uma ou várias experiências uma tecnologia social?
Primeiro: estar voltada à solução de um ou mais problemas sociais concretos. Segundo: caracterizar-se pelo baixo custo operacional relativo, pela simplicidade funcional e facilidade de manejo, pela sua eficácia na solução dos problemas-foco, pela aplicação em escala relativamente pequena e pelo seu potencial de replicabilidade. Terceiro: ser igualmente aplicável (embora com pequenas variações ou ajustes) a diferentes locais, comunidades ou grupos que convivam com problemas similares. O soro caseiro para o combate às diarréias e à desidratação, por exemplo, é altamente eficaz e não produz qualquer efeito colateral, independentemente do contexto socioeconômico, cultural e ambiental dos segmentos sociais beneficiados, sejam eles habitantes do sertão pernambucano, da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, ou do bairro do Morumbi, área nobre de São Paulo; sejam, ainda, moradores das grandes cidades européias, das populosas capitais asiáticas ou das pequenas comunidades incrustadas no coração da África. O mesmo ocorre com o preservativo masculino de borracha, utilizado para prevenção da gravidez não-desejada e das doenças sexualmente transmissíveis; com a farinha multimistura, usada como complemento alimentar e para prevenção da subnutrição infantil; com a adição do soro de leite à dieta diária, também utilizada como complemento alimentar e preventivo da desnutrição. Observa-se, pois, que uma tecnologia social também deve envolver a participação das comunidades em seu processo de criação, desenvolvimento e implantação, assim como deve focalizar as suas necessidades mais relevantes e estar em consonância com os seus valores, hábitos e práticas. Por fim, outra característica importante de tecnologia social é sua atemporalidade. Ao contrário dos projetos e programas, que têm prazo definido, a tecnologia social mantém-se válida até que outra tecnologia, voltada à mesma questão, porém mais avançada, a venha substituir.

 
 
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