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ENTREVISTA SOBRE TECNOLOGIA SOCIAL

De: Marcio Schiavo (diretor-presidente da Comunicarte)
Para: Andréia Peres

Quais as etapas que devem ser levadas em conta na construção de uma tecnologia social?
Consoante a filosofia da Comunicarte, o processo de construção de uma tecnologia social envolve seis etapas progressivas, que se complementam. São elas:

a) Diagnóstico Situacional – É a análise detalhada do contexto socioeconômico, cultural, ambiental e comportamental em que se vai operar, buscando-se identificar os problemas socioambientais mais relevantes e suas possíveis soluções; os segmentos mais afetados e suas principais características sociodemográficas, econômicas, culturais e comportamentais; as potencialidades presentes na comunidades em termos de recursos humanos, materiais, financeiros e tecnológicos; as atitudes, hábitos e práticas mais prevalentes em relação às questões sociais que serão abordadas; os profissionais e instituições locais mais influentes, que poderão atuar como agentes multiplicadores ou validadores da tecnologia social; os demais líderes formais e informais; e outros aspectos. Atualmente, a Comunicarte vem trabalhando na formatação e sistematização do Estudo de Impacto Social (EISO) e do Relatório de Impacto Social (RISO), um modelo de análise conceitual e metodologicamente bem mais avançado do que o estudo ou diagnóstico situacional.

b) Criação & Desenvolvimento – Esta etapa refere-se à concepção da tecnologia social e seu refinamento mais imediato, ajustando-a tanto às necessidades e expectativas dos grupos beneficiários quanto às potencialidades locais. A utilização de um número de telefone para ligações gratuitas com denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes e/ou de violência contras as mulheres, por exemplo, é uma tecnologia social que vem obtendo os melhores resultados em muitos estados. Contudo, tecnologias dessa natureza seriam quase inútil em comunidades interioranas muito pobres, nas quais o acesso ao telefone é bastante difícil. Quanto ao refinamento, o processo de implantação da tecnologia deve ser monitorado e avaliado, para que se identifiquem as melhores formas de propiciar o serviço ou produto à população. No caso do telefone, são requisitos essenciais: a) gratuidade da ligação; b) sigilo absoluto quanto à identificação do denunciante; c) período em que o serviço está disponível, de preferência, 24 horas por dia; d) presteza e qualidade do atendimento às pessoas que desejarem oferecer denúncias; e) possibilidade de o denunciante acompanhar o andamento do caso denunciado; e outros aspectos que a prática demonstre serem relevantes. O processo de refinamento de uma tecnologia social pode perdurar, portanto, até após a avaliação de resultados e de impacto social das ações, que comumente oferecem novos subsídios para o seu aperfeiçoamento técnico e adequação ao contexto social.

c) Viabilidade Técnica – Nesta etapa, deve-se estabelecer e consolidar o padrão técnico da tecnologia, o seu padrão tecnológico. Assim, o soro caseiro possui uma fórmula e um método de produção universalmente aplicável, o mesmo ocorrendo com a multimistura e os alimentos preparados com o soro do leite. No caso de telefones do tipo disque-denúncia, o padrão tecnológico envolve a precisa identificação e a classificação das violações a serem denunciadas, assim como o modelo básico de atendimento ao denunciante e um sistema de acompanhamento das denúncias junto a outros órgãos envolvidos.

d) Testes de Aferição da Viabilidade
– Estes testes de aferição constituem o processo de experimentação de uma tecnologia social, e as suas características dependem da natureza dessa tecnologia. Os primeiros testes de aferição da viabilidade devem ser realizados tão logo seja estabelecido o padrão técnico da tecnologia. Em geral, a experimentação ocorre por meio da implantação do serviço ou produto junto a um grupo selecionado de pessoas, que se dispõem a contribuir para a validação e refinamento da tecnologia social. No caso da adição de soro de leite bovino aos alimentos, por exemplo, cujos benefícios nutricionais há tempos são conhecidos, a etapa de experimentação concentrou-se em estabelecer uma aparência, aroma e sabor que facilitassem sua aceitação pelos beneficiários. Já em relação à farinha multimistura, os testes também indicaram o tipo e variedade dos seus componentes, de maneira a elaborar um produto nutritivo e balanceado. Algumas técnicas de pesquisa social (como grupo-focal, observação participante, pesquisa-ação e pesquisa de follow-up) podem ser aplicadas eficazmente à validação de tecnologias sociais.

 
 
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