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ENTREVISTA SOBRE TECNOLOGIA SOCIAL

De: Marcio Schiavo (diretor-presidente da Comunicarte)
Para: Andréia Peres

Tecnologia social é uma evolução de franquia social?
Não. São conceitos bem diferentes. A tecnologia social refere-se basicamente a uma forma de atuação social, a uma modalidade de intervenção social fundamentado em um determinado processo, método, estratégia, conceito e/ou instrumento específico, que tenha as características básicas delineadas na resposta à primeira pergunta. A franquia social diz respeito à criação e sistematização de um modelo que facilite a disseminação e replicação dessa tecnologia em outros ambientes sociais ou comunidades. Em suma: toda e qualquer tecnologia social – que, obrigatoriamente, tem na replicabilidade uma de suas características básicas – pode ser formatada como franquia social e esta baseia-se em uma ou mais tecnologias sociais. O importante é que esses conceitos sejam compreendidos como complementares, embora diferenciados, a fim de que se possa aproveitar todo o seu imenso potencial para alavancar, sustentar e nortear o processo de desenvolvimento humano local sustentável.

Como o termo foi mudando ao longo da história e o que foi se transformando com essa alteração de terminologia?
Como foi dito, o conceito de tecnologia social surgiu e evoluiu ao longo do século passado, sendo utilizadas para designá-lo (embora, não-exclusivamente), expressões como tecnologia intermediária, tecnologia apropriada, tecnologia popular, tecnologia alternativa, tecnologia comunitária, tecnologia da escassez, tecnologia de baixo custo, tecnologia socialmente apropriada, tecnologia ambientalmente apropriada, tecnologia humana e outras, de menor aceitação. Com algumas nuances – privilegiando ora este, ora aquele aspecto – todos estes termos designam métodos, processos, estratégias ou procedimentos de baixo custo e fácil aplicação, eficazes, de pequena escala e facilmente replicáveis. Sempre mantiveram, também, o foco na busca de soluções apropriadas aos diferentes contextos socioeconômicos, culturais e ambientais prevalentes nas comunidades pobres. E, finalmente, sempre privilegiaram o saber popular, as alternativas de soluções espontaneamente surgidas nas comunidades, reconhecidas como detentoras do direito à autodeterminação e à participação no processo de planejamento, execução, monitoramento e avaliação das ações voltadas ao seu próprio desenvolvimento.

Produção de tecnologia implica em experimento e risco. Como é isso na tecnologia social?
Evidentemente, a geração e a aplicação de uma tecnologia social requer um forte
sentido ético. Isto porque – diferentemente do que ocorre em outras áreas –, o experimento de uma tecnologia social não se dá em laboratório, de uma maneira que o pesquisador tem total controle das operações; mas sim, nas próprias comunidades que se pretende beneficiar e junto aos segmentos sociais que se pretende beneficiar. Os riscos são, portanto, bastante elevados. Caso se aplique algum procedimento inadequado, pode-se obter até mesmo um efeito iatrogênico, prejudicando-se aqueles a quem se pretendia beneficiar. Neste caso, o rigor ético dos agentes da intervenção social constitui a melhor forma de prevenção dos eventuais riscos associados ao processo de implantação da tecnologia. Consoante os seus valores éticos, portanto, devem ser criados e estabelecidos os sistemas, as metodologias e instrumentos a serem empregados no processo de monitoramento e avaliação permanentes, componentes programáticos que devem iniciar-se ainda na etapa de estudo situacional e diagnóstico do contexto social, estendendo-se pelas etapas de concepção e desenvolvimento da tecnologia, planejamento e implantação. É importante, também que todo este processo se desenvolva em permanente interação com os grupos beneficiários, com vistas a garantir que o produto (serviço) final corresponda às suas reais necessidades e expectativas, além
de contemplar os seus saberes e experiências, respeitar o seu direito à autodeterminação, alavancar e fomentar sua autonomia, seja pessoal ou socialmente.


 
 
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